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trinta de maio

À MEIA NOITE de dois ou três dias atrás choramingavam centenas de trabalhadores da rádio caracas de televisão, a RCTV. leia-se: a globo venezuelana.

todas as redes globos da américa latina, além da cnn, também choramingaram e tentavam nos convencer a choramingar também.
e vimos: manifestações contra a censura. a venezuela em chamas. a polícia de chavez reprimindo.
e vimos: foi golpe. foi decreto. foi cassação. ai!, afronta à liberdade de imprensa.
e vimos: os repórteres sem fronteiras, a maior piada francesa do mundo, falando bobagem.

sobre liberdade de imprensa
a expressão completa é: liberdade da imprensa do capitalismo.

mas
não vimos: chavez esperou, com paciência do jó, o prazo legal da concessão. chavez nao cassou nada. assim como no brasil, as televisões são concessões públicas e, com base nos princípios constitucionais, ninguém é obrigado à renová-las se não houver motivos para tal.
não vimos: a rctv sonegava impostos.
não vimos: a rctv é declaradamente fascista. o novo fascismo colorido.
não vimos: rctv investe em pornografia.
não vimos: rctv investe no imperialismo.
não vimos: a rctv mente, mente, mente, mente, descaradamente.
não vimos: a rctv retém pensões de seus funcionários.
e, pior: não vimos a rctv bancando midiaticamente o golpe da CIA e dos industriais do petróleo, em abril de 2002, quando invadiram o palácio Miraflores, sob ameaça de bombardeio.
não vimos: um paralelo traçado entre o golpe contra chavez e o assassinato (suicídio) do chileno salvador allende em 11 de setembro de 1973.
não vimos: a rctv é o canal dos industriais. aqueles que mantiveram a venezuela por 500 anos com um índice mais ou menos assim:
80% de pobres miseráveis
uma classe média pífia
e uns 8% de ricaços. algo assim.

o negócio é que matam a cobra e escondem o pau, contam o milagre mas não dizem do santo.
falam que a rctv não existe mais, mas não contam dos antecedentes.
entre outros antecedentes – dos quais a justiça venezuelana está cuidando -, o mais incômodo é o acontecimento-de-dois-dias retratado no documentário “a revolução não será televisionada” – filmado por dois irlandeses que, por um belo acaso – estavam lá desde 2001 para filmar um mero documentário sobre a revolução bolivariano -, pegaram o quase-assassinato do presidente e um golpe de estado poderosíssimo.

é uma trama de típico sabor latino-americano, e a rádio caracas de televisão era uma das principais protagonistas.

entendamos: a revolução não será televisionada.
não vai estar na televisão.

ou, melhor. na venezuela, agora vai:
são os povos
são as jornalistas
são as professoras
são os carpinteiros
são os telefonistas
são os índios e índias caribes, aruaques e cumanagatos
GERINDO um canal público.

ah, e o fim do vestibular.
hugo chavez decretou o fim do vestibular.
ele disse que era excludente.

¡uh, ah! ¡chávez no se va!

ruy marques

1.
A dicotomia exata entre os problemas reais do homem e a acessbilidade à internet (ou entre a escarrada fome e a pequena exclusão digital) é:
A primeira está consolidada em um enorme recorte diacrônico da História. A fome assola os homens há tempos. É impossível contá-lo (o tempo da fome) adequadamente. É possível dizer que é maior do que toda a escrita da história da gastronomia.
A segunda, no entanto, é mais nova do que o cinema.
A fome é um fenômeno geográfico universal. Josué de Castro não deixa mentir: é endêmica e epidêmica.
Quando surge o conceito de comida, de alimentação, de subsistência, ou quando o homem bota o primeiro pedaço de sei-lá-o-quê na boca, certamente era para saciar a fome. Antes do conceito, surge a fome em si. De uma demanda instintiva, vemos surgir pequenas gostosuras que promovem guerras, expansionismo marítimo e escravidão. A fome. Os temperos. As gostosuras.
A segunda, como dizia, é nova como o Sputnik. A segunda surge essencialmente da lógica da desigualdade. Surge como um processo de desenvolvimento tecnológico cuja distribuição é inerente à disputa – e esta é grande inimiga da bondade. E também do comum para todos e também dos verdadeiramente miseráveis.

2.

Temos um cenário colocado: fome, os desprovidos, Os Esquecidos, fome, fome. E grandes empresas desenvolvendo mecanismos inimagináveis, soluções para todo o burocratismo da sociedade. Para comprovar a verdade sobre a fome temos escritores, políticos, cineastas, filósofos e tristonhos que falam sobre isso sem parar.

3.
Já o analfabetismo tem similaridade direta com a questão da exclusão digital. Afinal, ambas as ferramentas são um determinado tipo de tecnologia da inteligência, são instrumentos humanos de comunicação, de condução e criação de pensamento. De modo que, se até 1990 era inaceitável um analfabeto antes de qualquer outra coisa, até 2013, dificilmente aceitaremos um iletrado da galáxia digital. A totalização textual é água passada; as possibilidades da comunicação coletiva nas redes de computadores, onde a unilateralidade é anatêmica, configuram o novo cenário do deserto do real.

4.

Com o processo de informatização geral da sociedade – a esfera institucional amplia cada vez mais os mecanismos de participação via Internet, como declarações de imposto ou http://www.governoeletronico.gov.br/ ;
A esfera privada (leia-se o mundo do consumo) – esta num avanço interminável de pedidos de flores, sanduíches, vinis, transações, pacotes de viagem;
A inabilidade para o acesso à Internet certamente vira o problema que a inabilidade para ao acesso aos caixas bancários não se transformou.

5.
É preciso um modelo alternativo de desenvolvimento que exija menos tecnologia. A informatização geral dos mecanismos de trabalho, hoje, gera hordas e hordas de desempregados, exércitos de inaptos para a produção intelectual. Manadas de marginais, um bando de búfalos bandidinhos sem nenhuma máquina prosaica para operar.
Contudo, também é preciso que caminhemos no sentido da defesa do direito à preguiça, do ócio criativo e da negação absoluta do trabalho. Hoje, defender isto é vagabundagem e comportamento burguês sem charme algum; amanhã, é o que precisaremos negar.

Afinal, o uso das masssas da tecnologia da internet, hoje, de modo geral, é de uma frivolidade tão absurda que deveria ser proibido.
Por outro lado, trabalho é escravidão.
De modo que hoje negamos um, amanhã o outro, e logo todos nos veremos livres da superficialidade e da alienação.